Dona Dorinha protege aos seres vivos que tem fome e aos que tem sede. Mas também lhes predica o cardápio e o apetite, sejam homens ou bichos. Afinal, toda bondade tem uma motivação moral e toda moral impõe limites.
Deu-se que em sua labuta para desentortar o mundo adotou uma gata e essa gata, de escassa virtude, deu uma ninhada de gatinhos.
Depois de encaminhar a maioria deles para outras almas sensíveis, restou um gato, malhado e manhoso, xodó das crianças.
Mas o gato cresceu e pôs-se um Adônis, com o que começou a alongar nas noites de lua, causando preocupações a Dona Dorinha.
Achando pouco, o chichisbéu resolveu cortejar a própria mãe, o que lhe valeu o transbordamento da tolerância da sua benfeitora.
- Gato sem-vergonha! Vadio! Vou te ensinar a respeitar a mãe!
E no rastro de um corretivo de chinelo, Dona Dorinha deliberou passar o conquistador aos cuidados de uma conhecida, uma boa velha que o adotou depois de ouvir elogios à saúde do bichano.
Como tudo tem função e destino no imaginário de Dona Dorinha, o caso virou parábola que conta para reger as filhas nos almoços de domingo. O engraçado é o fecho de cumplicidade que ela põe na história, como a esconder a infâmia de um parente:
- Mas eu não contei nada para ela das safadezas daquele gato!
terça-feira, 8 de setembro de 2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
PARA RENATA
Aprendi com você a suportar a escassez do mundo.
Tudo muito pouco e raro, mas permanente,
Como a necessidade de limar as unhas
E secar as sementes.
Mal suporto tudo isso, a bem dizer, entanto resisto,
Como o fio temerário da teia zomba do vento.
E se me dá vontade de pegar a estrada,
O seu silêncio me apascenta.
Tenho freqüentado essa escola do ínfimo, em tempo integral,
Com direito a merenda, férias, recreação, saco cheio,
Mas nada de estudos, fim de curso ou diploma,
Só o pão e o sal de cada dia.
Tudo muito pouco e raro, mas permanente,
Como a necessidade de limar as unhas
E secar as sementes.
Mal suporto tudo isso, a bem dizer, entanto resisto,
Como o fio temerário da teia zomba do vento.
E se me dá vontade de pegar a estrada,
O seu silêncio me apascenta.
Tenho freqüentado essa escola do ínfimo, em tempo integral,
Com direito a merenda, férias, recreação, saco cheio,
Mas nada de estudos, fim de curso ou diploma,
Só o pão e o sal de cada dia.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
DONA DJANIRA E EU
Minha mãe desmanchava castelos reais
E com as sobras fazia castelos imaginários
Na terra de todos os encontros,
Onde todos os trabalhos descansam e reparam,
Banhada pelo rio de todas as águas.
Ela pavimentava seus caminhos com palavras,
Cuido que para disfarçar os perigos da travessia.
Enquanto isso eu pescava as alegrias e dores do mundo
E ficava cismado vendo a sua esgrima contra o tempo.
Agora que finalmente pude ser Re-nato,
Posso me deixar conduzir pela mão,
Vou aprender com ela a pescar com o Peixe,
A pesca da vida eterna e sem mais ilusão.
Homenagem de Renato para sua mãe, interpretada pelo seu genro José Carlos (texto) e pelo seu neto Alexandre (desenho).
(Os primeiros cristãos desenhavam um peixe no chão para se comunicar em segredo. A palavra grega ICTYS (peixe) é um acróstico da expressão Iesus Christus Theou Yicus Soter - Jesus Cristo Filho de Deus Salvador).
E com as sobras fazia castelos imaginários
Na terra de todos os encontros,
Onde todos os trabalhos descansam e reparam,
Banhada pelo rio de todas as águas.
Ela pavimentava seus caminhos com palavras,
Cuido que para disfarçar os perigos da travessia.
Enquanto isso eu pescava as alegrias e dores do mundo
E ficava cismado vendo a sua esgrima contra o tempo.
Agora que finalmente pude ser Re-nato,
Posso me deixar conduzir pela mão,
Vou aprender com ela a pescar com o Peixe,
A pesca da vida eterna e sem mais ilusão.
Homenagem de Renato para sua mãe, interpretada pelo seu genro José Carlos (texto) e pelo seu neto Alexandre (desenho).
(Os primeiros cristãos desenhavam um peixe no chão para se comunicar em segredo. A palavra grega ICTYS (peixe) é um acróstico da expressão Iesus Christus Theou Yicus Soter - Jesus Cristo Filho de Deus Salvador).
A CHAVE DOS DESEJOS - Feito para Renata, em Fevereiro de 86, em Junho de 2007, em Setembro de...
Eu digo que te amo
E você não responde
Eu te dou meu silêncio
E o teu olhar se esconde
Só estou lhe pedindo
Que me acene à janela
Que me mostre o caminho
Ao limiar do beijo
(Como na visita de reconhecimento)
Em que você buliu
Na gaveta em meu ventre
E levou a chave
Dos próximos momentos
(Conto ainda as minhas perdas, depois de vinte e cinco anos)
Levou-me os desejos
Levou os meus olhos
Deu-me em troca os códigos
De três dos meus filhos
E você não responde
Eu te dou meu silêncio
E o teu olhar se esconde
Só estou lhe pedindo
Que me acene à janela
Que me mostre o caminho
Ao limiar do beijo
(Como na visita de reconhecimento)
Em que você buliu
Na gaveta em meu ventre
E levou a chave
Dos próximos momentos
(Conto ainda as minhas perdas, depois de vinte e cinco anos)
Levou-me os desejos
Levou os meus olhos
Deu-me em troca os códigos
De três dos meus filhos
Recurso de Apelação - Para Renata
Nunca soube direito o que lhe dizer. Então eu disse tudo o que sabia. Confessei todos os crimes cometidos e acrescentei outros que não existiam. Cometi depois alguns crimes confessados, por amor à verdade, por amor à vaidade e por falta de assunto. Tudo para agradar minha carcereira enigmática. Tudo para continuar preso no doce cativeiro do seu silêncio. Ao final de um processo que durou doze ou vinte e cinco anos, quando enfim esperava a prisão perpétua, a glória máxima dos amantes, fui libertado por falta de provas. Por isso hoje peço, em recurso de apelação, que não arquive ainda este caso, que o conserve aberto para diligências de namorado, com prazo certo para juntada de novas provas de amor. Peço ainda para responder à confiança da minha senhora em prisão domiciliar, na Rua Des. Leão Neto do Carmo, 1135, em regime de liberdade vigiada.
domingo, 30 de agosto de 2009
ANA LÚCIA
Ana Lúcia elucida
As horas vazias
Da agenda lotada
Ana não tem
Tempo seu para nada
Ana é a mulher
Que você procura
Quando está infeliz
Mas ela é casada
(e sobre a sua vida não se sabe nada)
Olhar seu esgrime
Lâminas de dúvida
E lágrimas não choradas
Ana não se entrega
Mas está cansada
As horas vazias
Da agenda lotada
Ana não tem
Tempo seu para nada
Ana é a mulher
Que você procura
Quando está infeliz
Mas ela é casada
(e sobre a sua vida não se sabe nada)
Olhar seu esgrime
Lâminas de dúvida
E lágrimas não choradas
Ana não se entrega
Mas está cansada
AVE MARIA
Ave, Maria, cheia de Graça,
O Senhor é convosco,
A Senhora é convosco,
Os bichos que medram no chão
Também são.
E eu sou o menor e mais rastejante deles,
Com os olhos maiores que o coração.
Ave, Maria, cheia de Graça,
Aceite minha oração:
Dai-me o pão do seu olhar,
A sua mão, o seu leite, a sua compaixão,
Receba de mim toda solidão,
A ira, a cobiça, a preguiça, a luxúria,
Aceite, sobretudo, a minha condenação:
Hei de ficar preso em seu altar,
Limpando a poeira do chão,
Açoitado pela plebe, nu, crucificado,
Até alcançar a salvação,
Por todas as Marias perdoado,
Pronto para nova perdição.
O Senhor é convosco,
A Senhora é convosco,
Os bichos que medram no chão
Também são.
E eu sou o menor e mais rastejante deles,
Com os olhos maiores que o coração.
Ave, Maria, cheia de Graça,
Aceite minha oração:
Dai-me o pão do seu olhar,
A sua mão, o seu leite, a sua compaixão,
Receba de mim toda solidão,
A ira, a cobiça, a preguiça, a luxúria,
Aceite, sobretudo, a minha condenação:
Hei de ficar preso em seu altar,
Limpando a poeira do chão,
Açoitado pela plebe, nu, crucificado,
Até alcançar a salvação,
Por todas as Marias perdoado,
Pronto para nova perdição.
LENINE E LENINALVA
Disse Lenine, gravebundo e urgente,
No dramático ano de 1917:
Amanhã poderá ser muito tarde.
Oitenta e oito anos depois
O mundo ainda está petrificado
Com o peso granítico dessa verdade.
Leninalva, Sexta-Feira, casual como sempre,
Sorriu e passou por mim
Desmoronando meus cinqüenta anos de estupefação:
De fato, amanhã, sábado de feijoada,
Pode ser que não haja clima para minha urgente revolução
Contra a estupidez da monogamia.
Amanhã, à luz do dia, é certo que será muito tarde,
E Lenine tinha razão, afinal,
Sobre a hora certa para a rebeldia.
No dramático ano de 1917:
Amanhã poderá ser muito tarde.
Oitenta e oito anos depois
O mundo ainda está petrificado
Com o peso granítico dessa verdade.
Leninalva, Sexta-Feira, casual como sempre,
Sorriu e passou por mim
Desmoronando meus cinqüenta anos de estupefação:
De fato, amanhã, sábado de feijoada,
Pode ser que não haja clima para minha urgente revolução
Contra a estupidez da monogamia.
Amanhã, à luz do dia, é certo que será muito tarde,
E Lenine tinha razão, afinal,
Sobre a hora certa para a rebeldia.
ENSAIO
Entre nuas paredes
Repletas de coxas,
A mão,
calma,
começa.
Lagartixa lesta
Salta sobre a mosca.
Coxas
des
con
ex
as.
Repletas de coxas,
A mão,
calma,
começa.
Lagartixa lesta
Salta sobre a mosca.
Coxas
des
con
ex
as.
CONTRATEMPO - Para Karina
Eu gosto de todas
Eu não sou feliz
Eu não estou triste
Eu estou por um triz
O que ainda não sou
É o que dói em mim
Eu vim do futuro
Pra te amar assim
Eu gosto de todas
Eu não quero nada
Eu sonho o silêncio
Da noite cansada
Eu me sacrifico
Para amar você
Eu canto a saudade
Do que vai nascer
Eu gosto de todas
Quero muito mais
O beijo da moça
A alma do rapaz
Eu sou jovem demais
Para entregas totais
Não me deixe agora
Não me fale em nós
Eu não sou feliz
Eu não estou triste
Eu estou por um triz
O que ainda não sou
É o que dói em mim
Eu vim do futuro
Pra te amar assim
Eu gosto de todas
Eu não quero nada
Eu sonho o silêncio
Da noite cansada
Eu me sacrifico
Para amar você
Eu canto a saudade
Do que vai nascer
Eu gosto de todas
Quero muito mais
O beijo da moça
A alma do rapaz
Eu sou jovem demais
Para entregas totais
Não me deixe agora
Não me fale em nós
Remeninices
De dia você é mais bela. A luz do sol te absolve. E te encabula mais. Você fica urgente como a margem do rio escondida na mata. Beira de rio em verão resseco.
Desabalo no rumo do cheiro da água doce. Capim menino tropa de cabrito zunem ladeira abaixo. Carreira estancada. Moça da roça segurando bilha. Os olhos nem dóceis nem atrevidos. Vontade de chamar para buscar melancia lá longe na beira do mato. Fruta de demoras, descansos, mais das vezes comida com as mãos, no meio do caminho. (há demandas para saber: se melancia se come ou se chupa).
Tem horas ouço passarinhos ancestrais. Assim: quando um sentimento mais forte cai sobre a superfície da alma estagnada, todos os pássaros debandam assustados pela boca afora, numa azoada medonha, levando os meus olhos assustados. Quando não tinha tenência sapato cinto responsa eu com eles avuava, medindo as coisas do brejo emprenhado de arroz maduro. Agora fico plantado em raiz de boteco medindo perna de moça.
Desabalo no rumo do cheiro da água doce. Capim menino tropa de cabrito zunem ladeira abaixo. Carreira estancada. Moça da roça segurando bilha. Os olhos nem dóceis nem atrevidos. Vontade de chamar para buscar melancia lá longe na beira do mato. Fruta de demoras, descansos, mais das vezes comida com as mãos, no meio do caminho. (há demandas para saber: se melancia se come ou se chupa).
Tem horas ouço passarinhos ancestrais. Assim: quando um sentimento mais forte cai sobre a superfície da alma estagnada, todos os pássaros debandam assustados pela boca afora, numa azoada medonha, levando os meus olhos assustados. Quando não tinha tenência sapato cinto responsa eu com eles avuava, medindo as coisas do brejo emprenhado de arroz maduro. Agora fico plantado em raiz de boteco medindo perna de moça.
Mulher nua em noite chuvosa
Estremeço desse tesão tranqüilo e permanente da meia-idade,
Rodando pela cidade estilhaçada de uma chuva melancólica.
Sigo por um desses túneis de árvores gotejantes.
Ruas de Campo Grande, distantes destinos quadrados,
Busco uma mulher nua e seca e calma e cismada,
Pedindo trégua do amor, pedindo água, cheirando vinho,
Apalpando a sua vida minuciosamente, em busca de um vão no seu véu de silêncio e mágoa.
Procuro um sinal, um chamado, uma sirene desesperada,
Encontro os sinaleiros piscando no amarelo: Atenção! Atenção! Atenção! ...
Rodando pela cidade estilhaçada de uma chuva melancólica.
Sigo por um desses túneis de árvores gotejantes.
Ruas de Campo Grande, distantes destinos quadrados,
Busco uma mulher nua e seca e calma e cismada,
Pedindo trégua do amor, pedindo água, cheirando vinho,
Apalpando a sua vida minuciosamente, em busca de um vão no seu véu de silêncio e mágoa.
Procuro um sinal, um chamado, uma sirene desesperada,
Encontro os sinaleiros piscando no amarelo: Atenção! Atenção! Atenção! ...
Loira Revolução - Para Jacy
O menino perdido
No meu labirinto
Ensaia um sorriso
Quando você chega
Falando mansinho
Sobre novidades
Irremediáveis.
Loira branca saudade
Da revolução de hormônios
Nos camaradas homens,
Um reclame eterno
Nos muros da cidade:
A Fome para Todos!
Até a saciedade
No meu labirinto
Ensaia um sorriso
Quando você chega
Falando mansinho
Sobre novidades
Irremediáveis.
Loira branca saudade
Da revolução de hormônios
Nos camaradas homens,
Um reclame eterno
Nos muros da cidade:
A Fome para Todos!
Até a saciedade
Flores Secretas.
Hão delas crisálidas. Casulos. Grisalhas. Flores secretas. Refolhas. Camufladas. As sorridentes, púlpitas. Heróicas umas, contritas, quebram lanças. E aquelas ariscas, que só desfolham na prensa, alegando lástimas. Cada uma com o seu encantamento mortal.
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