terça-feira, 29 de junho de 2010

QUASE REPUBLICANOS

Hoje é dia de jogo do Brasil. Dirigindo pelas ruas vejo o que me parece ser gente demais com motivos verde-amarelos. Fechado em minha retranca anti-unanimidade, fico cismando sobre o que essa febre amarelinha pode significar. Logo descarto a possibilidade de mais solidariedade no trânsito. A pressa e o desrespeito são os mesmos de sempre, com o agravante de que os amarelinhos parecem estar mais agressivos que o normal, como se estivessem indo para a guerra e não para uma atividade lúdica. Talvez um reflexo do time “guerreiro” vendido na mídia, talvez algo maior do que a ideologia do técnico, uma sede de auto-afirmação do brasileiro que só pode ser aplacada com a “certeza da vitória” ou com a “melhor defesa do mundo” ou com os gols do atacante mais forte e feroz do mundo. Fico com a certeza de que os patrocinadores etílicos dos “guerreiros” vão ganhar muito, seja qual for o resultado dos jogos. Enfim, chego em casa aliviado, depois de sobreviver às corredeiras do rio amarelo, pensando que, afinal, essa paixão pelo futebol pode ser um aprendizado importante para o povo brasileiro, supondo que:
1 - levantar o caneco ou dizimar adversários é um interesse particular apenas para os jogadores selecionados, os cartolas que os selecionaram e os patrocinadores que investiram neles, e não do povo brasileiro em geral;
2 – se mesmo assim, a cada quatro anos nos sentimos uma nação unida em torno do sucesso desse pelotão de guerreiros da bola;
3 – talvez, então, é bem possível que também estejamos a ponto de nos unir majoritariamente em torno da discussão sobre interesses públicos bem mais conseqüentes, como por exemplo: quais são as propostas efetivas de gestão do País de cada um dos candidatos e candidatas à Presidência da República.
Pois enquanto não houver o interesse na eleição presidencial pelo menos comparável ao interesse no desempenho dos cabeças-de-área amarelos na Copa do Mundo, então ainda estaremos escolhendo um Rei ou uma Rainha disfarçado, portanto necessariamente mentirosos e desleais (o que explica porque não podem defender os seus planos efetivos), e não o/a dirigente de uma República.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

DONA DORINHA E A MORAL DOS GATOS

Dona Dorinha protege aos seres vivos que tem fome e aos que tem sede. Mas também lhes predica o cardápio e o apetite, sejam homens ou bichos. Afinal, toda bondade tem uma motivação moral e toda moral impõe limites.
Deu-se que em sua labuta para desentortar o mundo adotou uma gata e essa gata, de escassa virtude, deu uma ninhada de gatinhos.
Depois de encaminhar a maioria deles para outras almas sensíveis, restou um gato, malhado e manhoso, xodó das crianças.
Mas o gato cresceu e pôs-se um Adônis, com o que começou a alongar nas noites de lua, causando preocupações a Dona Dorinha.
Achando pouco, o chichisbéu resolveu cortejar a própria mãe, o que lhe valeu o transbordamento da tolerância da sua benfeitora.
- Gato sem-vergonha! Vadio! Vou te ensinar a respeitar a mãe!
E no rastro de um corretivo de chinelo, Dona Dorinha deliberou passar o conquistador aos cuidados de uma conhecida, uma boa velha que o adotou depois de ouvir elogios à saúde do bichano.
Como tudo tem função e destino no imaginário de Dona Dorinha, o caso virou parábola que conta para reger as filhas nos almoços de domingo. O engraçado é o fecho de cumplicidade que ela põe na história, como a esconder a infâmia de um parente:
- Mas eu não contei nada para ela das safadezas daquele gato!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

PARA RENATA

Aprendi com você a suportar a escassez do mundo.
Tudo muito pouco e raro, mas permanente,
Como a necessidade de limar as unhas
E secar as sementes.

Mal suporto tudo isso, a bem dizer, entanto resisto,
Como o fio temerário da teia zomba do vento.
E se me dá vontade de pegar a estrada,
O seu silêncio me apascenta.

Tenho freqüentado essa escola do ínfimo, em tempo integral,
Com direito a merenda, férias, recreação, saco cheio,
Mas nada de estudos, fim de curso ou diploma,
Só o pão e o sal de cada dia.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

DONA DJANIRA E EU

Minha mãe desmanchava castelos reais
E com as sobras fazia castelos imaginários
Na terra de todos os encontros,
Onde todos os trabalhos descansam e reparam,
Banhada pelo rio de todas as águas.

Ela pavimentava seus caminhos com palavras,
Cuido que para disfarçar os perigos da travessia.
Enquanto isso eu pescava as alegrias e dores do mundo
E ficava cismado vendo a sua esgrima contra o tempo.

Agora que finalmente pude ser Re-nato,
Posso me deixar conduzir pela mão,
Vou aprender com ela a pescar com o Peixe,
A pesca da vida eterna e sem mais ilusão.

Homenagem de Renato para sua mãe, interpretada pelo seu genro José Carlos (texto) e pelo seu neto Alexandre (desenho).

(Os primeiros cristãos desenhavam um peixe no chão para se comunicar em segredo. A palavra grega ICTYS (peixe) é um acróstico da expressão Iesus Christus Theou Yicus Soter - Jesus Cristo Filho de Deus Salvador).

A CHAVE DOS DESEJOS - Feito para Renata, em Fevereiro de 86, em Junho de 2007, em Setembro de...

Eu digo que te amo
E você não responde
Eu te dou meu silêncio
E o teu olhar se esconde

Só estou lhe pedindo
Que me acene à janela
Que me mostre o caminho
Ao limiar do beijo

(Como na visita de reconhecimento)

Em que você buliu
Na gaveta em meu ventre
E levou a chave
Dos próximos momentos

(Conto ainda as minhas perdas, depois de vinte e cinco anos)

Levou-me os desejos
Levou os meus olhos
Deu-me em troca os códigos
De três dos meus filhos

Recurso de Apelação - Para Renata

Nunca soube direito o que lhe dizer. Então eu disse tudo o que sabia. Confessei todos os crimes cometidos e acrescentei outros que não existiam. Cometi depois alguns crimes confessados, por amor à verdade, por amor à vaidade e por falta de assunto. Tudo para agradar minha carcereira enigmática. Tudo para continuar preso no doce cativeiro do seu silêncio. Ao final de um processo que durou doze ou vinte e cinco anos, quando enfim esperava a prisão perpétua, a glória máxima dos amantes, fui libertado por falta de provas. Por isso hoje peço, em recurso de apelação, que não arquive ainda este caso, que o conserve aberto para diligências de namorado, com prazo certo para juntada de novas provas de amor. Peço ainda para responder à confiança da minha senhora em prisão domiciliar, na Rua Des. Leão Neto do Carmo, 1135, em regime de liberdade vigiada.

domingo, 30 de agosto de 2009

ANA LÚCIA

Ana Lúcia elucida
As horas vazias
Da agenda lotada
Ana não tem
Tempo seu para nada

Ana é a mulher
Que você procura
Quando está infeliz
Mas ela é casada

(e sobre a sua vida não se sabe nada)

Olhar seu esgrime
Lâminas de dúvida
E lágrimas não choradas
Ana não se entrega
Mas está cansada